

:: Links ::
:: Arquivos ::
Por favor pessoal, enviem-me os códigos para colocar os banners!













Janeiro-2004
Dezembro-2003
Novembro-2003
Outubro-2003
Setembro-2003
Agosto-2003
Julho-2003
Junho-2003
Maio-2003
Abril-2003

A educação no Brasil está nas mãos dos canalhas. Não se trata de defender o Ministério do governo anterior, mas Paulo Renato possibilitava uma transparência tal, quando ministro, que nós, nas universidades, tínhamos pelo menos a certeza de quando eles, os algozes, vinham nos fazer uma visitinha. Agora, há o obscurantismo total: não só não há transparência, como conseguir uma mínima informação torna-se um trabalho digno de Ulisses.
A boa notícia que o vosso presidente demitiu Cristovam Buarque. A má, como nas piadas, é que colocou no seu (do ministro, não do presidente) lugar Tarso Genro! O que pasma é a justificativa elegantíssima e altamente racional, típica de seu raciocínio de rinoceronte: “Lula deu um tapa na mesa anteontem à noite (incrível como o jornalismo fornece informações úteis para seus leitores, não?), quando conversava com o novo ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos (PSB-PE). Disse que não agüentava mais "acadêmicos" no governo e que tiraria Cristovam. "Quero ministros para apresentar resultados, não para ficar com tese, com conversa. Por isso, estou pegando essa turma boa da Câmara", disse.” Está lá, na Folha on-line.
Tarso Genro, turma boa? Parte da mesma curriola. Mas não admira o tal desabafo: quem não consegue perceber a importância do estudo – e ele mesmo não tem nenhum – parte para a atitude que reina por aqui: algo só é bom quando útil. Aliás, o mesmo raciocínio que destruiu toda a expressão artística na União Soviética, em Cuba, na China, na Coréia do Norte.
E etcoetera etcoetera etcoetera...
Este espaço pode ser mal humorado e rabugento ou, pelo menos, ter essa pretensão. Já me falaram várias vezes: que o meu desejo é ser mal humorado e rabugento, mas não consigo, sabe-se lá a razão. Mas concordo, esse é um desejo e não passa disso. Quando o atinjo sinto-me bem, feliz comigo mesmo, murmurando “consegui, consegui”.
Na verdade, tenho um plano antigo que, aos poucos, vai tomando corpo, engrandecendo, amadurecendo, assumindo novas formas e conquistando novas estratégias: um dia, vou conseguir enlouquecer gerentes de banco à profusão. Por enquanto, apenas os irrito. Uma espécie de esporte. Para que mais pode servir um gerente de banco, senão para, naqueles momentos de profunda frustração com a vida, desopilarmos o fígado? E o melhor: nem é preciso ser cliente. Basta entrar no banco, procurar o gerente, que é aquele sujeito metido em um terno da Colombo ou da Dourinhos na cor mais improvável, barrigudinho e cultivando uma calva que ele tenta se convencer que é respeitosa, com uma gravata listada presa por aquela coisa ridícula que inventaram - o prendedor de gravatas. Sempre se dá ar sério e austero, sempre tenta parecer muito ocupado (todos os gerentes de banco tem ares de homens muito ocupados) e segue à risca aqueles manuais de empresários de sucesso. Admira o Sílvio Santos porque vendia pentes na rua e agora é o que é, seja lá o que ele seja. O gerente de banco é o leitor de Você S.A., de Quem Mexeu no Meu Queijo, do Kama Sutra do Empresário, do Como Liderar Equipes Sem Que Elas Percebam Que Você Apenas Quer Uma Promoção Às Custas do Seu Trabalho. Conquistar um mínimo sinal de irritação em um gerente de banco é uma vitória, pois todos sabem que o som não se propaga no vácuo.
Gerente de banco faz Administração de Empresas ou Ciências Contábeis em faculdades periféricas. Nunca conheci algum que se importasse com coisas mais elevadas, como Arte ou Literatura. Gerente de banco gosta só de filmes de ação dublados; se vai ao teatro é para ver aquela peça do Miguel Falabela; acha que a Regina Case é uma grande atriz; Gost é o melhor filme que já viu na vida; Gugu e Fausto Silva são apresentadores sérios e bem humorados; e o jornal que assiste narra todos os crimes do país e tem helicópteros circulando pela cidade. Gerente de banco não se irrita fácil: ele não entende exatamente o que você quis dizer com isso. Gerente de banco guarda todos os e-mails que recebe com o título “aumente seu pênis” (mas não conta para ninguém). Constata-se, assim, que é muito difícil tirar um gerente de banco do sério.
Um dia, com persistência, atingirei o auge da perfeição. Serei reconhecido de longe e, quando entrar em uma agência qualquer, no mais distante dos lugares, o gerente esconder-se-á sob a escrivaninha: “digam que não estou, digam que não estou”. Espalharei o terror e terei uma velhice feliz.
Por enquanto, tenho quatro gerentes. Odeio cada um deles.
Entendo. O senhor deseja compreender isso que eu disse. Acha complicado, inconclusivo, um tanto arrogante. Sei, sei. Mas alerto: o senhor está enganado. Quando eu digo que não tenho determinada virtude não estou generalizando. Apenas digo que a Temperança, aquela mesma Temperança já defendida como necessária à plena felicidade humana por Platão e retomada já não sei se por Santo Agostinho ou Santo Tomás de Aquino (creio que os dois fizeram isso), a Temperança, dizia, me falta no mais da vezes. O senhor sabe: sem ela, caímos inevitavelmente ou na carência ou no excesso – dois limites viciosos que, reconheço, incorro com certa freqüência.
Como? Oh, não, não é isso, ainda. Não sou dados a extravasamentos, a bebedeiras sem fim, a usos de alucinógenos ou similares. A Temperança me falta porque simplesmente fico constrangido – e o meu constrangimento é estético. Vou tentar elucidar ao senhor essa questão. Peço, então, paciência. Sente-se, acomode-se, por favor. Deseja alguma coisa? Um café, um cigarro? Vou diminuir um pouco a luz – o ambiente se tornará, assim, mais adequado para o que, parece-me, será uma longa confissão.
A primeira vez em que senti esse tipo constrangimento foi há muito tempo. Tinha, então, coisa de 14, 15 anos. O senhor sabe: essa é uma idade na qual a formação ainda está engatinhando – acreditamos no que nos dizem, somos envolvidos pelo que a mídia afirma ser verdade, trememos frente à autoridade dos professores e seguimos, conforme nossa capacidade, o que eles dizem. Mais do que isso: não gostamos de nos sentir atrasados frente aos colegas, aos amigos. Pois sim, o senhor tem razão: era um tolo, como aliás todo mundo nessa idade é tolo. Adolescência é doença. Mas, antes que o senhor me acuse ainda mais, devo dizer que eu lia, e lia muito. Sem grandes filtros, sem grandes pretensões, mas estava lá, à mão, em casa, todo o Dostoiévski, que foi uma descoberta. Não! De jeito algum! Dostoiévski nunca me deixou constrangido... Foi outro, outro escritor, se é que podemos classificá-lo assim.
O fato é que todo mundo, naquela época, leu Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva. Foi essa a primeira vez que tive a sensação de clara vergonha: em casa, fechado no meu quarto, enquanto lia página após página a história do livro, sentia como se minha garganta fechasse impedindo a respiração; fiquei, mesmo, ruborizado – estava envergonhado de ler aquilo! Estava envergonhado por mim e por todas aquelas pessoas que leram o livro. Mais ainda: constrangi-me porque lia, via, ouvia apenas comentários elogiosos, como se ali na minha frente estivesse a grande salvação da literatura brasileira. Não, nunca confessei ter lido Rubens Paiva – apenas a uma prima que queria ler aquela bobagem e propôs uma troca: o lixo pela Revolução dos Bichos. Vê? Orwell ainda está aqui, na biblioteca, naquela prateleira de cima. Não, não sei o que ela fez com o livro trocado – mas eu nunca a lembrei da troca, temendo que ela tivesse o desejo de ficar com o – agora meu – livro!
O senhor não entende? Ler um livro ruim é como perder anos de sua vida – mesmo que o senhor tenha perdido apenas algumas horas na leitura. Se li mais alguma coisa dele? Bem – posso dizer que sim. Toda vez que vou à livraria e vejo algum lançamento novo, não resisto. Como? Não chego a comprá-lo, claro. Folheio-o ali mesmo: leio o primeiro parágrafo, sorteio um trecho lá pela metade e – está consumado! Não é preciso comer todo o prato para saber se a comida é ruim: basta uma garfada. Aliás, esse processo é muito útil e pode ser aplicado invariavelmente a qualquer autor. Se as garfadas, duas ou três, foram satisfatórias, vale a pena ler todo o volume; caso contrário, deixe o livro ali e tente escondê-lo mais ao fundo na prateleira. É, no mínimo, um procedimento caridoso: escondendo o livro, algumas pessoas podem ser salvas. Utilizo este processo sempre: com Rubens Paiva e Paulo Coelho e Fernanda Young. Há mais, muitos mais autores que geram o constrangimento. Mas foi apenas uma experiência, a primeira. Sim, piorou. Ou melhorou. Depende apenas do ponto de vista que o senhor assumir.
Não, essa sensação, essa carência de Temperança não se restringe à literatura. A música também a provoca. Creio que de uma forma muito mais intensa. Mas, ao contrário do livro que, mesmo se o senhor estiver em lugar público, pode fechá-lo e jogá-lo pela janela do ônibus, com a música é diferente. Pode-se apenas desligar a rádio quando se está sozinho, em casa. Em lugares públicos, essa prática não é possível: tornamo-nos reféns do mau gosto alheio, somos torturados por um batuque infernal e por metáforas grosseiras. O senhor nunca notou que as pessoas que escutam pagode – o mesmo vale para duplas pseudo-sertanejas e grupelhos de rap – tem um ar, digamos, imbecilizado? O senhor me acha agressivo? Desculpe, mas agressivo é o mau-gosto. Mas há pior...
O comportamento é pior. Há uma gradação no constrangimento: começa com uma coisa que parece tola, alastra-se e, sem que percebamos, nos envergonhamos de pertencer à espécie humana. Explico: há alguns anos trabalhava em uma instituição de ensino. Qual? Deixemos de curiosidade – nomeá-la não irá elucidar o que tento explicar para o senhor. E temo, tenho a certeza, que muitos dos envolvidos no caso continuam com a mesma prática. Veja bem: o constrangimento que sinto não tem como objetivo a humilhação dos outros. Eles, de certa forma, são vítimas – vítimas da banalização, da moda, da repetição, de uma propaganda insidiosa que teima em louvar os valores e modelos mais baixos do comportamento. Podemos, quando muito, tentar salvar essas almas – e aqui volto ao caso. Foi em um final de ano. Uma turma, que se formava professoras de língua e literatura, resolveu fazer uma comemoração – uma despedida, creio que podemos chamar assim, entre os colegas e alguns professores. Uma sala foi liberada, levaram comida e refrigerante. Tudo indicava que não iríamos além da conversa casual, do relaxamento que segue a quatro anos de formação e de insistente batalha para a leitura de livros obrigatórios para a boa consciência crítica. Engano, engano! Como não pude perceber a armadilha que era tramada nas sombras? Inocência minha, talvez.
O fato é que, determinado momento, entrou uma senhora – já na prática docente há coisa de quinze anos e precisava do papelucho para continuar na profissão – com uma garrafa de Sidra Cereser! Senhor! Nem alcoólatra enfrentando três dias de síndrome de abstinência bebe Sidra Cereser! O sinal de mau gosto era óbvio demais, explícito demais para ser desconsiderado. Mas, nova confissão de ingenuidade: acreditei que a coisa pararia ali. Compreende? Foi quando o horror, o Mal, tomou posse da sala. Alguém levou um toca-CDs! E martelaram infindáveis e infinitos pagodes.
O senhor ri? Diverte-se, claro. Vejo que o senhor compactua com o discurso vazio do “respeito às referências culturais do estudante”. Está enganado, completamente enganado. E esse engano é mais cruel porquê ele afeta vítimas inocentes. Veja: isto que o senhor crê ser positivo é um crime contra a consciência dos alunos. Eles não estão ali para permanecer no mesmo nível intelectual em que se encontravam antes. Se pretendem ser professores, devem receber referências adequadas para poderem, por sua vez, melhorar a capacidade dos seus alunos. É um ciclo, percebe? Hm-hm. Vejo que não percebe – nem mesmo se eu disser que elas chacoalhavam ao som daquilo que acreditavam ser música. Lembrar isso me faz reviver o constrangimento, pois sacolejavam e faziam caretas. Teve uma até que colocava a língua para fora para se concentrar e acompanhar o ritmo!
Não agüentei cinco minutos: tive se sair dali às pressas, de volta para minha sala, para o silêncio da minha sala, para os livros, poucos, que mantinha ali numa tentativa de salvação. O batuque continuou lá em cima (pois a sala dos alunos ficava num dos andares superiores). Choveu dali a dez minutos. Um professor não pode ser vulgar. Não um professor decente.
Ah, meu caro... poderia discorrer horas sobre estas situações terríveis. Poderia falar daquela missa que assisti, onde as pessoas agitavam os bracinhos sobre as cabeças e faziam cabriolas, com o padre comandando tudo; poderia falar sobre as roupas que as pessoas usam nas ruas desta cidade, poderia ainda falar sobre a política que nos rege, poderia falar de muita coisa, mas o senhor apenas ficaria mais enfastiado do que já está. Percebo que não consegue concordar com o que digo. Mas isso, para mim, não importa.
O senhor já vai? Entendo. Não consegue permanecer muito tempo frente a frente com a verdade. Talvez o senhor goste disso tudo: da literatura digestiva semi-alfabetizada, da agressão musical, do mau-gosto imperante... Mas, antes que se vá, deixe dizer apenas uma coisa mais: olhe bem para os lados, tente notar que há coisas melhores à sua volta. Não devemos esquecer de uma coisa: a vulgaridade é a morte do espírito.
Há um conto, nas Mil e Uma Noites, no qual um homem, após ser condenado à morte pelo Rei, propõe um pacto: só morreria verdadeiramente se o Rei terminasse de ler determinado livro. O pacto, é claro, é aceito – sem o que não haveria conto – e, decapitado o homem, põe-se o Rei a ler o livro indicado. Enquanto o Rei não terminar o livro, a cabeça do homem permanecerá consciente, dirigindo as ações do seu algoz. As páginas do livro, velho, antigo, recoberto de pó (é como o imagino em sua encadernação em pele de carneiro já machada e desgastada pelo tempo), as suas páginas, eu dizia, estão grudadas; o Rei lambe as pontas dos dedos e inicia a leitura. Escuto a voz do homem: “continue, continue”, até que, ao virar uma página, há apenas o branco – nada foi escrito ali, ou pelo menos nada que possa ser compreendido. O Rei, ansioso, vira cada página, lambendo os dedos, e as encontra todas brancas até fechar o volume. “Mas não há nada escrito aqui”, diz, indignado. O guilhotinado responde: sim – e agora posso morrer em paz; e você morrerá também. Não há surpresas: suspeitamos desde o princípio que o livro está envenenado, como aquele outro do Nome da Rosa – e tenho certeza que Umberto Eco leu este conto de Sherazade.
Há um sentido implícito aqui. Além da trama, superficial e óbvia e fantástica, da proposta e do obstáculo a ser vencido – coisa que se percebe desde a primeira linha – há outra, mais sensível e profunda: a página em branco representa a morte. Quem não lê está morto, quem é incapaz de penetrar nos meandros do texto não serve para a humanidade. O branco da página é o mesmo que o vazio da mente de um não-leitor. Sem o código, não há existência – logo: não há vida.
Não é por acaso que cruzamos com milhares, milhões, de pessoas que se prendem ao pragmatismo e que consideram a Literatura (e a Arte) uma perda de tempo: estão todas mortas, restritas a uma existência sem sentido, sem significado. Vêem apenas o palmo encoberto de névoa à frente do nariz – isso quando não perdem o próprio, como em outro conto, creio que de Gogol. Não percebem a menor sutileza, arrastando a sua aparente vivência na rotina diária e redundante, absurda e vazia. Mais uma vez: não vivem. Apenas desejam acreditar que há vida nesse caminhar, no roteiro perene que insistentemente repetem sem sentido nem razão.
O livro, o que ele nos conta – pois que o livro nos conta, não importando tanto assim o desejo do Autor, um ser quase metafísico de tão distante -, oferece mais sentido, mais experiência, mais Graça (e o sentido, aqui, é quase religioso) do que o constante ritual casa-trabalho, trabalho-casa. O livro ilumina e faz com que ressurja nosso mais íntimo sentido/sentimento.
Tive grandes amigos, a maior parte imaginados – por mim ou por outros. Os outros, de carne-e-osso, de infindáveis desgastes, de algum modo perecem no tempo. Resta sempre uma idéia, um fantasma do passado. O tempo muda todas as coisas – mas o ideal permanece. O livro retém minha vida.
Uma biblioteca é um universo mais real do que este mundo no qual estamos obrigados a conviver. Fora dela há apenas o terror incomensurável do vazio.
O Brasil, depois de Lula, parece uma enorme churrascada com pelada.
Os homens, todos, de bermudões largos e velhos, camiseta regata do curíntcha ou do parmera mostrando o sovaco peludo, balançando a pança atrás de uma bola de lona, sentindo-se zagueiros de verdade. Gritam palavrões a cada cinco minutos, mergulham em infindáveis latinhas de cerveja vagabunda, abraçam-se grudentos na hora do gol. Há algo de homossexual em comemorações de gol.
As mulheres metidas em maiôs menores, muito menores, do que deveriam, com os cabelos oxigenados e penteados de tal forma de que lhes dá um ar de araras envelhecidas matraqueando, matraqueando, matraqueando. Batom sempre vermelho demais, unhas sempre vermelhas demais, pernas e braços sempre flácidos demais.
A plebe, rude e ignara, assiste a tudo, embevecida, em estado hipnótico: são iguais a nós, são iguais a nós.
O fatal entorpecimento desse país.
I. Amarás a Suma Imperatrix Universitas acima de todas as coisas. Ela é a detentora do Saber, a Consciência Suprema que rege o Universo do Saber, a Voz eterna que dita as normas do Saber.
II. Jurarás fidelidade eterna a Marx e a Nietsche, seus apóstolos. Louvarás os filósofos franceses da pós-modernidade, seus profetas.
III. Amarás a redundância. Ela é o Instrumento que transformará os absurdos mais tolos em Verdades eternas.
IV. Não desejarás atingir o conhecimento verdadeiro, mas restringir-te-ás ao que a moda acadêmica dita.
V. Abusarás das citações alheias. Mesmo o teu texto será apenas uma releitura dos apóstolos e profetas.
VI. Escreverás teses nas quais nada é novo.
VII. Citarás sempre a fonte. Menos quando não tiver ninguém olhando.
VIII. Acreditarás apenas na objetividade. Escreverás em estilo simples. Não rebuscarás teu texto. Não parecerás mais inteligente do que a Imperatrix.
IX. Não questionarás o que é ordenado dos Círculos Celestiais oitavo e nono, também conhecidos como Departamentos de Filosofia e de Educação. O que emana dos Círculos obedece aos desejos da Imperatrix.
X. Não pensarás.
(Depois de conseguida a Graça, que pode ser qualquer cargo na Santa Academia, faça mil cópias do Decálogo e da Oração e distribua pelas escolas)
Ando pensando nesse texto há alguns dias. Depois de ler n’O Esquisito um belo texto sobre o assunto, não me contive – ainda mais que gerou uma pequena e apreciável polêmica nos comentários. Está tudo lá, quem tiver olhos para ler... Então agradeço ao, e desculpo-me com o, André primeiro por ter ocupado em demasia o espaço dos comentários – mais um pouco a coisa virava uma monografia! Depois, por aproveitar-me do momento para escrever o meu texto, sem pretensões e sem desejos de polêmica. Desalinhado, desalinhavado, recheado de lacunas, sem fundamentação científica ou acadêmica – apenas uma tentativa de pensar um pouco sobre um assunto que me é caro. Opinativo, só isso – mas raios! também tenho direito a opiniões.
Não se trata de condenar o Protestantismo em suas versões mais célebres – o luteranismo e o calvinismo, ainda que o segundo apresente uma intolerância com o comportamento humano muito maior do que o primeiro. Ainda assim, ambos são fátuos em sua postura.
As razões são óbvias: Lutero bebeu, por anos, do pensamento de Santo Agostinho – e não há quem leia seriamente as obras do bispo de Hipona e consiga sair incólume de sua lógica e da clareza da sua exposição. O que Lutero fez foi algo mais simples do que questionar os dogmas da Igreja, em um período no qual ela mergulhava a fundo na corrupção: foi resgatar polêmicas antigas e cujos resultados salvaram a cristandade no primeiro milênio graças ao mestre de sua ordem, dando-lhes um novo verniz condizente ao seu tempo; em outras palavras: retocando aqui e ali a pintura, ajustando costuras que permaneceram soltas, enfeitando a casaca dom uma nova flor para se tornar condizente com a norma da época, o capitalismo comercial. Sim, concordo que a Igreja – e quando digo Igreja refiro-me àquela Católica e Apostólica e Romana – chegou atrasada e perdeu a condução, presa que esteve nas teses de Tomás de Aquino sobre a usura e ao empréstimo a juros. Mas consigo defender sua posição, por mais antiquada que pareça: o dinheiro é necessário à sobrevivência humana, mas não o seu objetivo central. Ainda Santo Tomás, citado livremente: quem empresta a juros, negocia com o Tempo – e o Tempo não é mensurável porque é eternidade e a eternidade não é um dom divino: é a própria essência de Deus. A lógica tomista, que me parece válida ainda hoje, é clara: usufruir do lucro do tempo é tentar transformar o que é eterno em mensurável e, portanto, diminuir seu valor.
Quanto a Calvino, pouco ou nada deve ser dito. Inimigo de qualquer sinal de alegria humana, proibiu nos cultos o uso da música, por exemplo. O calvinismo é uma idéia de tristeza, onde a alegria do encontro é deixada de lado ou, simplesmente, inexiste. Mas, reafirmo, nada condenável nessa tentativa de retorno a um período que consideravam mais puro do cristianismo, a não ser a sua clara tendência materialista. E, se algum valor deve – e efetivamente deve – lhes ser atribuído é a tentativa de colocar a própria Igreja nos eixos. Sim, ela estava perdida depois de mil e tantos anos construindo o que seria a Europa e as bases da cultura ocidental, depois de reerguer os antigos e seu pensamento, depois de traduzir, já no século IV, a Bíblia para o latim – língua universal de seu tempo.
Escutei um resmungo na quinta fila. Antes que o senhor levante a mão, respondo: o latim era a única língua compreensível e lida internacionalmente pelo simples fato de que a cultura era restrita a dois estamentos sociais: o clero e parte da nobreza. Sim, eu disse parte da nobreza, não toda. As universidades eram o centro do saber e formaram não só teólogos, mas juristas e imperadores e matemáticos e médicos e exigiam o domínio do latim para o ingresso em seus cursos, o que tornava o acesso restrito. A idéia da generalização, ou da abertura da educação em nível superior (aliás em todos os níveis) é fruto do estado moderno, leia-se: século XVI. Nesse período que surgiram as universidades que visavam a educação profissionalizante, utilitária e pragmática para uso do poder instituído. Maquiavel é fruto disso – o que sua visão política revela. O Protestantismo, idem, na medida em que centra na condição específica do individuo a capacidade de interpretação da Palavra revelada. No período medieval, a visão que se tinha e se incentivava era a coletiva, ou seja, toda a comunidade cristã fazia parte de um único corpo – e esse corpo deveria obedecer às Leis e Regras de maneira também única. Por isso as lutas internas da Igreja contra os cátaros, por exemplo, ou com os nestorianos, que pregavam que Cristo não seria co-substancial ao Pai ou que Ele teria uma natureza puramente humana, tendo recebido o Espírito apenas quando do batismo. Teses que foram condenadas e rejeitadas nos diversos concílios para garantir a Verdade da Palavra. Os Protestantes, não nego, seguiram essa trilha corretamente. Mas apegaram-se não no nível de interpretação ou no seu erro ou na interpretação desviada da Verdade: apegaram-se a problemas muito mais próximos da esfera política do que da religiosa. Uma olhada na História pode nos ajudar a perceber isso – o que não vou fazer, os livros estão aí; mas apenas um dado: antes de religiosa a Reforma, vinculada com os interesses do Estado germânico, foi um movimento que tentou controlar a expansão imperial da Igreja. Sim, esse o maior desejo de Roma – tornar-se um Império, cumprir com a profecia dos mil anos de felicidade na terra. Não, não conseguiu – e nem teria como.
E mais: os protestantes não foram os primeiros a traduzir a Bíblia para a língua vulgar: no século XII, portanto quatrocentos anos (ou coisa perto disso) antes de Lutero, em Portugal circulava uma versão, em galego-portguês, do Velho e do Novo Testamentos. Nada próximo do que conhecemos hoje; muito distante de ser uma versão completa do Texto Sagrado. Deve ter sido – e é só uma conjectura – obra de algum padre de alguma ordem com meros fins utilitários. Mas está lá, em Alcobaça, para quem quiser ver. Nem é preciso ir muito longe: há duas edições do Velho Testamento por aqui mesmo: uma preparada por Heitor Megale e publicada pela Imago nos idos de 1970 e outra, de Serafim da Silva Neto, publicada pelo falecido Instituto Nacional do Livro na década de 1950. Obras difíceis, a segunda mais do que a primeira, mas os pacientes receberão o reino dos céus. Do Novo Testamento houve a promessa de publicação, não sei se cumprida, do mesmo INL. Nunca a encontrei. Mas persisto na demanda.
Não se pode esquecer, também, que a própria Igreja promoveu uma Reforma, intensa e sábia e bem dirigida, lá pelo ano 1000. Gregório, o papa, preocupado exatamente com a impossibilidade de acesso à palavra escrita por parte do povo desenvolveu a idéia da “Bíblia dos pobres”, que existe até hoje em qualquer templo católico: os quadros ou esculturas retratando a via crucis, contando a história de Cristo de forma exemplar. Poderíamos nos referir ao canto gregoriano e sua modulação que efetivamente eleva que o escuta, poderíamos analisar os vitrais e a arquitetura que seria conhecida como gótica – todos elementos simbólicos que representam a ascensão do espírito. Idolatria! gritarão uns mais afoitos, na tentativa de demonstrar que ela, a Igreja, rompeu com as regras vetero-testamentárias e cometeu uma traição para com a Lei. Mas, antes que o grito reverbere pela nave tranqüila onde estamos, devemos pedir silêncio. Pois o silêncio gera a introspecção e esta nos leva a pensar e, pensando, percebemos que as imagens ali à volta não são ídolos – são símbolos. E, como símbolos, não devem ser adorados, mas respeitados. Sim, sim, eu sei – o povo confunde as coisas, a Igreja não deixou clara a intenção simbólica e tudo o que sabemos a esse respeito. Confesso: são argumentos válidos, mas inconclusos. Motivos simples e diretos – a imagem serve como exemplo mais facilmente apreensível e, por mais que o delírio alucinado de alguns se apegue a Nossas Senhoras Desatadoras dos Nós ou similares, o seu motivo continua sendo apenas exemplar. Nenhum dos doutores da Igreja pregou algo diferente disso; pelo contrário, suas posturas foram, sempre – e generalizo sem medo – de ascese.
Falando sério: não posso brigar com o Protestantismo, chamarei de Clássico, porque vejo aspectos muito próximos com a Igreja – apenas alguns dogmas que divergem. Mas a essência está aí, cristalina e transparente: a fundamentação na Bíblia. Com o movimento neo-pentecostal a coisa é outra – e com esse sim, a briga não só vale a pena como pode servir para desmascarar a deturpação da sua visão.
O que choca, o que agride, é que a manifestação religiosa dita cristã chegou às raias do absurdo com um movimento que se diz herdeiro direto dos dois reformistas mas que, em essência, pouca coisa lhes deve. O movimento neo-pentecostal, filho dileto do puritanismo formador do estado norte-americano, está muito mais arraigado nos preceitos materialistas do que pregam. Tudo bem, não torçam o nariz – vou abrir exceções: há gente que realmente crê no que faz, e tenta fazer da melhor maneira possível, ainda que persistam as contradições. Há igrejas que se preocupam com o valor da caridade e do livre-arbítrio, que respeitam a fé alheia, que não tentam impor sua interpretação a golpes de marreta, que não pregam guerras santas ou insanas contra a Igreja só porque ela é a Igreja.
Mas há as outras – as histéricas, que se valem da inocência, do desconhecimento, para pregar a intolerância e o ódio, para explorar claramente os fiéis desesperados e sem perspectivas, manipulando suas consciências no que chamam de “campanhas” e “votos” e “sacrifícios”. Para essas, qualquer versículo bíblico onde se mata um boi assume um significado totalmente diverso do que tem – acaba por significar que o pobre crente deve desfazer-se da sua mínima subsistência para dar à instituição, sob promessa de que irá colher maiores e melhores frutos. Não vejo, aqui, nada de espiritual; não noto nenhuma construção positiva da fé; nada de esperança; não há a menor dose de caridade; aliás, não consigo enxergar, por entre os rasgos do véu, sequer a sombra de Cristo. Para estas ditas igrejas, claramente heréticas, para as Universais e Renasceres da vida, o que há um eco longínquo, quase inaudível, das palavras de Jesus Cristo. Há a manipulação para se atingir interesses pessoais. São empresas, não templos; são vendilhões, não sacerdotes; são retores, não lógicos; são ilusionistas, não apóstolos.
Sua justificativa é a de que o Espírito Santo lhes dirige a interpretação da Palavra – mas não admitem que se lhes contradiga. Afirmam que o pastor ou o bispo (ou qualquer outro nome que se atribuam) é dirigido porque “toda autoridade é constituída por Deus”, mas não toleram a idéia de que o Papa é autoridade e que detém, ele também, os Dons. Erguem a voz, pregando uma cruzada destruidora e intolerante para com os demais cristãos – numa tentativa vã de se manterem à superfície. E conseguem, de alguma forma. Acusam a Igreja de todos os crimes históricos, como a Inquisição, mas esquecem que a perseguição religiosa não foi exclusiva do catolicismo a partir do Renascimento; culpam os jesuítas de desrespeitar os índios na época colonial, mas não confessam que seus pregadores, metidos no meio da mata, utilizam um processo muito mais cruel do que aprender a língua local e escrever peças de teatro e poemas para a sua conversão: simplesmente erradicam a sua noção cultural e sua tradição – o que gerou, coisa de dois anos ou três, um alto índice de suicídios dos jovens “evangelizados”. Isso é notícia, não um delírio. O delírio está na idéia de conversão a todo o custo; a neurose, na idéia de que são separados e eleitos. Há sede de poder, e apenas isso. Uma visão demasiadamente humana da transcendência.
O que deve haver é a reaproximação das diversas igrejas cristãs naquilo em que lhes é comum. Luteranos, Calvinista e Católicos já dão os primeiros passos para isso; Ortodoxos, Russos e Gregos, idem. Outras tendências mais tradicionais, cujos nomes não recordo, com a História como apoio, também se movem neste sentido. É o caminho que me parece lógico e justo. Mas os neo-pentecostais não admitem a aproximação.
Sem uma visão profunda e apenas com os interesses imediatos e pragmáticos da sobrevivência de suas empresas, eles apenas permanecerão onde estão: na obviedade vulgar de seus líderes.
Eu também tenho meus rituais de passagem, ao final do ano. Uma superstição, das pequenas, mas que a mim me parece ter funcionado em todos os anos passados.
Tenho, obrigatoriamente, de ler o último livro do ano, preferencialmente comprado exatamente para a ocasião. No caso, foi o quarto volume da biografia de Dostoiévski, escrita por Joseph Frank, e que demorou horrores para ser lançada no Brasil. Falta, ainda o quinto volume, saído na Inglaterra em 2002 e que prometem para 2004 por estas bandas.
Não sou um grande leitor de biografias – não me agrada a forma e nem o tom de fofoca ligeira, meio escandalosa, que geralmente apresentam seus autores. Há até uma tipologia bastante clara: há as biografias enfastiantes, nas quais seus autores seguem o biografado a cada passo, como no caso de São Paulo de Castro Alves, de Norlândio Meireles de Almeida, que apresenta até o menu do restaurante onde o poeta almoçou – um dado que não interfere em nada na produção artística, que nada significa, a não ser o orgulho do autor em nos dizer em alto e bom tom “vejam, vejam que pesquisa profunda eu realizei!” Há um segundo tipo, o da clara fofoca, que não merece sequer ser comentado – parece-me um absurdo a quantidade de livros, escritos por gosths relatando a vida dos ricos & famosos & bregas & imbecis para leitores, se não ricos & famosos, nos outros dois aspectos idem. Um terceiro tipo igualmente me irrita: a tendência psicanalítica, ou supostamente psicanalítica, com que narram a vida, geralmente desgraçada, do biografado. Assim, Baudelaire sofria de complexo de Édipo, segundo Henry Troyat; Camille Claudel era mesmo louca de pedra, beirando a neurastenia, segundo o delírio alucinado de Liliana Liviano Wahba; e Maria Callas tinha entranhado em si um complexo de Clitemnestra que a levava a procurar homens poderosos para substituir o pai e que sempre a deixavam, segundo Arianna Huffington. Três grandes bobagens que, para quem conhece minimamente as obras dos biografados, percebe-se logo a inconsistência das teses.
Mas esta, sobre Dostoiévski, é diferente. Participa de uma categoria que chamarei inteligente. Além de heróico trabalho, Frank estuda em profundidade todo o período da história russa do século XIX, inserindo o escritor no contexto, questionando as diretrizes dos teóricos da literatura que dizem que a obra deve ser lida em si e por si, esquecendo-se o resto. As análises que fornece são coerentes, límpidas, belas, intensas. Sim, rasgo elogios e loas de louvor quando o livro merece. A única outra biografia decente que havia lido até então era a de D. Pedro I, por Octávio Tarquínio de Souza, hoje esgotadíssima e de certa raridade. Melhor: há outra, Um Estadista do Império, de Joaquim Nabuco a respeito do seu pai. Obrigatória. Não ler Um Estadista... vale, pelo menos, dez anos no purgatório.
O ritual não pára aqui. Há a segunda etapa, que é ler o primeiro livro do ano. Deve ser comprado no exato dia 2 de janeiro. O que, geralmente, é um problema: as livrarias apresentam prateleiras desérticas, escuta-se até mesmo o eco das conversas nos seus corredores. Nenhum lançamento até o segundo mês. Mas encontrei um livrinho de Paul Johnson, autor que admiro e de quem já lera Os Intelectuais, em edição ruim de não sei qual editora, e A Igreja Católica, apanhado breve mas de qualidade sobre estes dois milênios de cristandade. O livro que abre meu ano é The Papacy (coloco em inglês: o título que a Ediouro colocou para atrair compradores é, no mínimo, infame). Em tudo muito bom, com uma exceção: que raios faz o Frei Betto ali, prefaciando? Não poderia, deturpador que é da fé cristã, deixar de assumir o tom exclusivamente político a respeito do papado – e, se elogia João Paulo II, que ficará para a história da Igreja ao lado de João XXIII como um dos mais importantes papas dos últimos 200 anos, o faz por que ele teria “criticado o neo-liberalismo” e apoiado Cuba, a Líbia, o Iraque ao não romper com estes países diplomaticamente. Um delírio do tal Betto ou clara manipulação dos pronunciamentos do Vaticano? Creio que um delírio por causa da interpretação simplista – como toda interpretação da esquerda, aliás. Mas o bom de prefácios é que podemos pulá-los, se são ruins, ou deixá-los para depois, se são importantes e vão nos direcionar a uma determinada interpretação da obra. Neste caso, pode-se, sem cair em heresia, arrancar as três primeiras páginas e ficar com a qualidade.
Um ritual de passagem – melhor do que a festividade tola e alcoólica, melhor do que a euforia insana e sem sentido, melhor do que os programas de retrospectiva. Inicio o ano não com o prazer, mas com o deleite.
Nada de inesperado pode ocorrer: tudo precisa ser esperado.
(Eurípedes)
Abrimos, há muito, a caixa. Pagamos com nosso sangue todo o progresso, toda a ciência, toda a evolução da humanidade em direção à plena fatuidade das ações. Filho da Ilustração, do cientificismo, da lógica pseudo-racional, o Homem vê-se mergulhado em um simulacro de felicidade, em uma grande e festiva aparência de boa vida. Trocou a Boa Nova por um prato de lentilhas, comerciou a busca dos valores maiores – o Bem, o Belo, o Verdadeiro que dirigem a consciência ao Justo – em troca de uma capacidade limitada de reproduzir o comportamento eternamente. Esse o eterno retorno de Nietsche: um mergulho no inferno, onde não há livre-arbítrio, pois tudo está determinado desde o princípio a ser redundante e tolo.
Não percebem, mas o império da ciência é o império do mesmo. E, onde tudo se repete com insistência e sofreguidão, quando tudo que temos é o modelo vago de um sentimento que chamam amor – mas que está absolutamente distante do Amor – e que se revela apenas um uso pessoal e egoísta, quando tudo é previsível e previsto por normas falsas – temos não o ceticismo, uma doença do nosso tempo, mas curável com doses maciças de cristianismo, mas o niilismo. O niilismo é a completa falta de perspectivas. Nós abrimos a caixa, mas retemos em seu interior a Esperança. O niilista não só a abriu: arrancou sua tampa e se viu mergulhado no horror profundo e, para suprir sua carência, inventou esquizofrenicamente um mundo materialista no qual todas as coisas obedecem ao padrão laboratorial previsto. Se os fatos não correspondem à experiência, pior para os fatos.
Mas creio que exista, ainda, uma saída. Uma saída que não é dolorosa, que não tem a ver com o sofrimento; uma saída que, por mais que nos digam o contrário, é fácil. Não exige conversões radicais, pois podemos ir em sua direção como estivermos; não impõe que carreguemos as culpas de nossas vidas, pois o perdão existe e o fardo é leve. Exige, apenas, que tenhamos olhos para ver e ouvidos para ouvir, que abandonemos uma única coisa, a mais triste que carregamos: o egoísmo. Se conseguirmos isso, veremos o mundo, a matéria, a Natureza e perceberemos que somos, finalmente, participantes. Isso que espero, isso que desejo a todos.
O ano que virá continuará não sendo fácil. Mas nós, nós poderemos nos tornar melhores. Nós poderemos, dentro do pouco que somos capazes, ser aquele grão de mostarda que move o mundo.
__________
Et audivi vocem Domini dicentis: Quem mittam?Et quis ibit nobis?Et dixi:Ecce ego, mitte me.
(Is. VI: 8)
Desejo a todos a plena felicidade em 2004 e que possamos ter, juntos, os momentos e partilhar e dividir nossas idéias, de plantar com a boa semente para que todos possamos, depois, colher os bons frutos.